NADA ALEM DO VÉU

29/10/2009 13:46

Introdução

A expressão restauração significa, entre outras coisas, recuperar, trazer algo de volta ao seu estado original. A Palavra de Deus nos diz que, nos últimos dias, quando a volta do Senhor Jesus estiver próxima, acontecerá a restauração de todas as coisas:

“O qual convém que o céu contenha até aos tempos da restauração de tudo, dos quais Deus falou pela boca de todos os seus santos profetas, desde o princípio” [At 3:21].

Deus está comprometido com esta promessa. Percebamos que Deus tem uma preocupação especial com a restauração do Tabernáculo de Davi:

“Depois disto, voltarei e reedificarei o tabernáculo de Davi, que está caído; levantá-lo-ei das suas ruínas e tornarei a edificá-lo” [At 15:16].

Por que será que o Senhor deseja tanto restaurar o tabernáculo de Davi? Precisamos entender com profundidade o significado do Tabernáculo de Davi, para podermos responder a esta pergunta apropriadamente. Entretanto, vale adiantar – apenas a título de introdução – que o Tabernáculo de Davi aponta-nos especificamente para o ministério de louvor e adoração da Igreja.

Sabemos que a volta do Senhor Jesus será precedida de um grande mover de adoração em todo o mundo. Desde o final do século passado, já percebemos as marcas do cumprimento dessa palavra profética.

Nunca houve na história da Igreja, um eclodir de manifestações de adoração tão intenso quanto o que temos presenciado nestas últimas duas décadas. Deus está cumprindo sua promessa. O Tabernáculo de Davi (louvor e adoração) está sendo levantado em todo o mundo. Glórias a Deus!

Entretanto, paira no ar a seguinte pergunta: “Será que temos entendido com profundidade o real significado deste tabernáculo?”. Será que temos entendido o significado da adoração restaurada? É com esta questão incomodando a alma que o convido a entrarmos – juntos – muito além do véu.

Boa leitura!

1. O Modelo do Céu

Toda a razão de ser das coisas que existem no mundo visível tem sua explicação na eternidade invisível, também chamada de céu. É ali onde tudo começa.

De fato, podemos afirmar que vivemos em dois mundos, que coexistem paralelamente: O mundo natural–visível e o mundo espiritual–invisível. Neste sentido, parece haver uma espécie de cortina que separa essas duas realidades ou dimensões.

Ao mesmo tempo em que o nosso mundo natural–visível está em movimento, o mundo espiritual–invisível também se move ao nosso redor. É nesta dimensão espiritual–invisível que está o Trono de Deus, e é ali onde atuam anjos e demônios. Nós não os vemos a olho nu, mas eles são tão reais quanto a cadeira onde sentamos ou a caneta que usamos para escrever.

O Senhor Deus teve o cuidado de nos deixar a Sua Palavra, onde Ele nos revela seus propósitos eternos, além de mostrar-nos alguns aspectos deste mundo espiritual–invisível, os quais precisamos saber como igreja da última hora.

Abramos por um instante as cortinas que nos levam ao céu das coisas invisíveis, olhando pelos óculos de Apocalipse, a Revelação. Deus, antes mesmo de nos criar, já tinha um padrão de adoração no céu, que Ele desejou que um dia fosse seguido por todos aqueles que viessem a existir.

O Senhor Deus arrebatou o apóstolo João desta dimensão visível e temporal para a revelação daquilo que se esconde atrás do véu da história dos homens. Lembre-se: realidade e visibilidade não são sinônimos, e independem uma da outra. Assim, apesar de não enxergarmos o que existe na outra dimensão, ela é tão real quanto as coisas que vemos com nossos olhos nesta dimensão.

Atentemos, então, para alguns aspectos do modelo de adoração existente desde a eternidade, revelados no capítulo 4 de Apocalipse:

“Depois destas coisas, olhei, e eis que estava uma porta aberta no céu; e a primeira voz, que como de trombeta ouvira falar comigo, disse: Sobe aqui, e mostrar-te-ei as coisas que depois destas devem acontecer. E logo fui arrebatado em espírito, e eis que um trono estava posto no céu, e um assentado sobre o trono” [Ap 4:1‑2].

“E do trono saíam relâmpagos, e trovões, e vozes; e diante do trono ardiam sete lâmpadas de fogo, as quais são os sete Espíritos de Deus. E havia diante do trono um como mar de vidro, semelhante ao cristal, e, no meio do trono e ao redor do trono, quatro animais cheios de olhos por diante e por detrás. E o primeiro animal era semelhante a um leão; e o segundo animal, semelhante a um bezerro; e tinha o terceiro animal o rosto como de homem; e o quarto animal era semelhante a uma águia voando. E os quatro animais tinham, cada um, respectivamente, seis asas e, ao redor e por dentro, estavam cheios de olhos; e não descansam nem de dia nem de noite, dizendo: Santo, Santo, Santo, é o Senhor Deus, o Todo-poderoso, que era, e que é, e que há de vir” [Ap 4:5‑8].

A primeira coisa que João vê é o Trono de Deus, e o Senhor assentado sobre ele. Isto nos faz pensar no fato de que o nosso deus é soberano e está no controle de todas as coisas. Nada foge aos Seus olhos e nada escapa ao Seu controle.

Aprendemos aí que o alvo de toda adoração é Aquele que vive no trono. Adoração que não reconhece o Trono e Aquele que sobre ele se assenta é apenas exercício vocal, barulho vagando ao vazio. Adoração tem endereço certo. Entretanto, se não há um trono no coração de quem ministra, o que fizermos poderá agradar a todos, mas não chegará aos céus como cheiro suave.

Outra coisa que João vê em volta do Trono são os 4 seres viventes, chamados por Ezequiel de querubins e por Isaías de serafins.

“E, do meio dela, saía a semelhança de quatro animais; e esta era a sua aparência: tinham a semelhança de homem. E cada um tinha quatro rostos, como também cada um deles quatro asas. E os seus pés eram pés direitos; e as plantas dos seus pés, como a planta do pé de uma bezerra, e luziam como a cor de cobre polido. E tinham mãos de homem debaixo das suas asas, aos quatro lados; e assim todos quatro tinham seus rostos e suas asas. Uniam-se as suas asas uma à outra; não se viravam quando andavam; cada qual andava diante do seu rosto. E a semelhança do seu rosto era como o rosto de homem; e, à mão direita, todos os quatro tinham rosto de leão, e, à mão esquerda, todos os quatro tinham rosto de boi, e também rosto de águia, todos os quatro. E o seu rosto e as suas asas eram separados em cima; cada qual tinha duas asas juntas uma à outra, e duas cobriam os corpos deles. E cada qual andava diante do seu rosto; para onde o Espírito havia de ir, iam; não se viravam quando andavam. E, quanto à semelhança dos animais, o seu parecer era como brasas de fogo ardentes, como uma aparência de tochas; o fogo corria por entre os animais, e o fogo resplandecia, e do fogo saíam relâmpagos. E os animais corriam e tornavam, à semelhança dos relâmpagos” [Ez 1:5‑14].

“E a glória do Deus de Israel se levantou do querubim sobre o qual estava, até a entrada da casa; e clamou ao homem vestido de linho, que tinha o tinteiro de escrivão à sua cinta” [Ez 9:3].

“Então, estendeu um querubim a mão de entre os querubins para o fogo que estava entre os querubins; e tirou e o pôs nas mãos do que estava vestido de linho, o qual o tomou e saiu” [Ez 10:7].

“Os serafins estavam acima dele; cada um tinha seis asas: com duas cobriam o rosto, e com duas cobriam os pés, e com duas voavam. E clamavam uns pa a os outros, dizendo: Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória” [Is 6:2‑3].

Querubim

Os querubins são uma espécie de ordem avançada de anjos, que têm na adoração a sua única razão de existir. Eles adoram a Deus o tempo todo. Satanás era querubim da guarda ungido. Ao que tudo indica, ele liderava a adoração nos céus.

“Já foi derribada no inferno a tua soberba, com o som dos teus alaúdes; os bichinhos, debaixo de ti, se estenderão, e os bichos te cobrirão” [Is 14:11].

Entretanto, ele se encheu de soberba e desejou tomar para si a glória e o Trono de Deus.

“Filho do homem, dize ao príncipe de Tiro: Assim diz o Senhor Jeová: Visto como se eleva o teu coração, e dizes: Eu sou Deus e sobre a cadeira de Deus me assento no meio dos mares (sendo tu homem e não Deus); e estimas o teu coração como se fora o coração de Deus” [Ez 28:2].

“Eu sou o Senhor; este é o meu nome; a minha glória, pois, a outrem não darei, nem o meu louvor, às imagens de escultura” [Is 42:8].

E, assim, a primeira rebelião que houve no Universo foi liderada por um músico, e ocorreu em pleno ministério de louvor e adoração. Satanás não se contentou em rebelar-se sozinho. Aliás, como sempre acontece com os rebeldes, ele foi logo influenciando a outros e – começando por aqueles que faziam parte do ministério de louvor e adoração – conseguiu arrastar após si a terça parte dos anjos, deixando, assim, uma enorme brecha na adoração dos céus.

“E a sua cauda levou após si a terça parte das estrelas do céu e lançou-as sobre a terra; e o dragão parou diante da mulher que havia de dar à luz, para que, dando ela à luz, lhe tragasse o filho” [Ap 12:4].

Na verdade, quando nos aproximamos do Trono de Deus, só podemos reagir de duas maneiras: ou nos rendemos a Ele em adoração submissa ou nos rebelamos e tentamos nos entronizar a nós mesmos. Lúcifer fez a sua escolha e, juntamente com seus seguidores, foi lançado fora da presença de Deus. É interessante que observemos com atenção a queda de Lúcifer, para, daí, extrairmos lições – as mais profundas – para nossas próprias vidas, já que – como diz a própria Palavra:

“Aquele, pois, que cuida estar em pé, olhe que não caia” [1Co 10:12].

Lúcifer caiu por causa da soberba, que é irmã gêmea da vaidade e que, por sua vez, tem tudo a ver com a auto-estima pessoal. Tudo nos leva a crer que a posição que ele ocupava na liderança da ministração da adoração nos céus começou a fazer brotar em seu coração a tentação de querer roubar para si aquilo que ele levava os outros a darem somente a Deus: a glória. Parece, então, que ele começou a se deixar tomar por uma intensa necessidade de reconhecimento. Os abundantes elogios que ele recebia – inclusive do próprio Deus, que o considerava “o sinete da perfeição”, uma espécie de obra-prima da criação – tornaram-se laços dentro do seu “eu”, levando-o a pensar de si mesmo além do que de fato ele era, e a pensar de Deus aquém do que realmente Ele é.

“Filho do homem, levanta uma lamentação sobre o rei de Tiro, e dize-lhe: Assim diz o Senhor Jeová: Tu és o aferidor da medida, cheio de sabedoria e perfeito em formosura” [Ez 28:12].

Uma vez cheio de si mesmo, adotou uma estranha atitude de independência em relação ao Criador. A rebelião estava consumada, alastrando-se por todos os escalões dos céus.

Isto nos leva a pensar com temor e tremor em nós mesmos. Ocupar a posição de ministros de louvor e adoração diante do povo de Deus nos deixa expostos às mesmas tentações de Lúcifer. Vozes bonitas, mãos ágeis, talentos especiais, admiração de muitos, elogios tantos. Não serão, porventura, as armadilhas usadas pelo inimigo para tentar reproduzir em nós mesmos a mesma atitude de rebelião que o levou a cair?

“Sujeitai-vos, pois, a Deus; resisti ao diabo, e ele fugirá de vós” [Tg 4:7].

Freqüentemente, encontrarmos músicos e cantores adeptos da rebelião. Não se submetem às autoridades que Deus tem colocado sobre suas vidas. Fazem o que acham que devem fazer e vão para onde pensam que devem ir. Não obedecem aos pais, nem aos líderes e, muito menos, aos pastores. Não aceitam repreensão, não gostam de Bíblia nem de oração. São independentes. Não precisam de ninguém, só do seu talento. São seguidores do “estrelismo”, tanto quanto o era o pai da rebelião. Tocam e cantam enganando-se a si mesmos e aos outros, dizendo que é para Deus, quando, na verdade, é para o próprio louvor de si mesmos. Não só atrapalham-se a si mesmos, como se tornam estorvo para a casa de Deus, impedindo a manifestação da glória do Senhor na adoração da igreja.

Aqueles que vivem em atitude de rebelião em relação às autoridades que Deus tem instituído sobre suas vidas (pais, maridos, ministros de louvor, pastores) não têm autoridade para estarem à frente do povo de Deus para ministrar. Adoração não convive com rebelião, pois são opostos entre si.

“Antes, dá maior graça. Portanto, diz: Deus resiste aos soberbos, dá, porém, graça aos humildes” [Tg 4:6].

Oremos como o salmista, que foi um verdadeiro adorador:

“Também da soberba guarda o teu servo, para que se não assenhoreie de mim; então, serei sincero e ficarei limpo de grande transgressão” [Sl 19:13].

“Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao teu nome dá glória, por amor da tua benignidade e da tua verdade” [Sl 115:1].

Com a queda de Lúcifer – não sei se antes ou depois, só Deus o sabe –, Deus decidiu, então, criar o homem, à Sua imagem e semelhança, para que ele ocupasse o espaço vazio de adoração deixado nos céus, envergonhando assim ao diabo e aos seus principados e potestades caídas.

“Com o fim de sermos para louvor da sua glória, nós, os que primeiro esperamos em Cristo” [Ef 1:12].

Voltemos ao texto de Apocalipse 4… Se os querubins existem tão somente para a adorar a Deus diante do Seu Trono, e se, como dissemos, eles são a referência do padrão divino na adoração desde sempre, então temos muito que aprender com eles. Neste caso, a primeira pergunta que devemos fazer é: “Qual o conteúdo da adoração que eles prestam?”. Observe que a adoração dos querubins tem um compromisso com quatro verdades importantes:

Deus é Santo

“Santo, Santo, Santo…”. O primeiro compromisso de quem adora é com a Santidade de Deus. Ora, não é possível cantar a Santidade de Deus, sem estar-se comprometido com a nossa santidade pessoal.

“Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” [Hb 12:14].

Deus quer uma adoração que brote de vidas santas, expressa por lábios igualmente santos. Sabemos que, em Cristo Jesus, fomos todos justificados e tornados santos (separados) perante o Senhor. É por causa da cruz do Calvário e através do Sangue de Jesus que podemos nos achegar ao Trono de Deus para adorá-Lo em santidade e para exaltá-Lo em Sua Santidade.

Isaías, o profeta, teve esta revelação da Santidade de Deus e foi tomado de temor e tremor, além de experimentar a mais absoluta consciência de pecado. A verdade é que, diante da revelação da Santidade de Deus, nós só podemos ter estas duas reações: temor e consciência do quão pecadores somos. Diante da Santidade de Deus, fica exposta a nossa real situação de pecado. Entretanto, quando reagimos quebrantados diante deste fato, o Senhor nos toca e nos purifica, para que possamos, enfim, ministrar diante Dele em santidade.

Deus é Senhor

“O Senhor Deus”. A adoração que chega ao Trono é aquela que parte da vida daqueles que, na Terra, vivem debaixo do senhorio de Cristo. Se o Senhor não domina a minha vida, como posso eu cantar o Seu Senhorio? A verdadeira adoração flui do íntimo daqueles que reconhecem o senhorio absoluto de Deus sobre tudo e sobre todos.

Deus é Todo-poderoso

“O Todo Poderoso”. Ou o deus ao qual adoramos é o Todo-poderoso para nós – e isto não apenas de lábios – ou então, quando estamos pensando que estamos adorando-O, estamos apenas brincando de adorar. Se não tivermos a visão correta de quem Deus é, o Todo-poderoso, então teremos uma visão errada de nós mesmos e, por conseguinte, pensaremos de nós mesmos além do que convém. Deus é onipotente na concepção plena da palavra. Só Ele pode todas as coisas. Só Ele desconhece limites. Só Ele realiza o impossível.

Deus não muda

“Aquele que era, e que é”. Deus não muda.

“Jesus Cristo é o mesmo ontem, e hoje, e eternamente” [Hb 13:8].

“Toda boa dádiva e todo dom perfeito vêm do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança, nem sombra de variação” [Tg 1:17].

Suas promessas não mudaram, Seu caráter também não. Muito menos, o Seu padrão para os que pretendem adorá-Lo.

“Porque todas quantas promessas há de Deus são nele sim; e por ele o Amém, para glória de Deus, por nós” [2Co 1:20].

Jesus voltará

“E que há de vir”. Jesus vai voltar, para julgar a Terra e destruir de uma vez para sempre o reino das trevas. Jesus vai voltar para buscar Sua Igreja. Essa é a verdade que Deus quer que manifestemos em toda a nossa adoração. Também deve ser esta a motivação mais profunda que ocupe a nossa interioridade e dê sentido à nossa adoração. A história terá um desfecho. O Rei virá, e nós reinaremos com Ele. Aleluia!